Herbert
Emanuel, poeta e
integrante do Tatamirô da Poesia
Entre as
pedras de Itabira e os desvãos de São Paulo ou do Rio, nas curvas do rio
Itabapoana e nos becos da favela, existe um lugar poético onde todos os tempos
e todos os mitos convergem. Este lugar é a língua afiadíssima de Artur
Gomes. Em “Drummundana Itabirina: por onde andará macunaíma?”,
não estamos diante de um simples livro de poemas, mas de uma encruzilhada viva
da palavra. Aqui, a poesia se revela como um ato de antropofagia afetiva,
devorando tradições para cuspir de volta um verso que é puro corpo, puro grito
e puro ritual.
Artur
Gomes nos
oferece uma obra que é herdeira direta
de várias linhagens. Esta apresentação é um convite para atravessar essa
ponte, essa “Ponte Grande, a ponte para o outro lado do rio”, que ele
constrói entre a tradição e a ruptura, citando exclusivamente o universo que
nasce de seus próprios versos.
Tudo
começa, como não poderia deixar de ser, em Itabira. Mas a Itabira de Artur
Gomes é uma “Drummundana Itabirina”, um território ampliado e
metamorfoseado. Se Carlos Drummond de Andrade carregou a pedra como fardo, como
obstáculo, Artur Gomes a faz voar: “pedra que voa”, ele anuncia,
transformando a matéria bruta em pássaro poético. Ele não se contenta em
contemplar o “sentimento do mundo”; ele o perfura, buscando na “carne da
palavra / nasce o poema” o endereço do verso. Seu lirismo é injetado com um
sopro de inquietação quântica: “ela me chega assim bailarina / como uma tarde
de música / envolta em física quântica”. A pergunta do título, “por onde
andará macunaíma?”, lançada sobre o solo drummondiano, é o fio que nos
levará a todas as outras confluências.
Macunaíma,
o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade, não é uma figura do passado.
Ele é um rastro, um fantasma ativo que o poeta persegue. O poema que dá nome ao
livro narra justamente esse percurso:
“É bem
verdade que em 2022 / Macunaíma passou pela Geleia Geral… / rumou para as
quebradas… / foi deitar no colo da Carlos Drummond de Andrade em Itabira.”
Este
trecho é um manifesto. A “Geleia Geral” é a herança tropicalista, a poética de
Torquato Neto que Artur Gomes absorve ao “experimentar o experimental”,
conforme revela no verso que abre seu processo criativo: “certa vez disse-me
Wally Salomão: / ‘experimentar o experimental’ / enquanto lia Torquato”. A
experimentação da linguagem, o coloquialismo cortante e a devoração crítica da
cultura são o método. Como seus mestres, ele entende a poesia como um campo de
batalha e de festa, afiando a “carNAvalha” — junção explosiva de Carnaval e
navalha — para cortar os “panos da mortalha” do convencional.
Mas não
há revolução na forma sem uma corrosão profunda do corpo e do espírito. Ou melhor: do corpoespírito.
A isso chegam os poetas malditos. Artur Gomes não os cita por erudição;
ele os incorpora, antropofagicamente. Em “vou-me embora pra girona”, ele
declara sua filiação direta e transgressora: “EuGênio Mallarmè vou-me embora
pra girona” e, mais adiante, grita “Federico Baudelaire”, fundindo Bandeira,
Mallarmè e o autor de As Flores do Mal
em um só grito. Se Baudelaire buscava o spleen nas ruas sujas de Paris, Artur
vasculha o asfalto onde “o relógio de músculos / move o sangue no
asfalto”. Se Rimbaud almejava a desregração de todos os sentidos, esta
poesia é um manual prático, onde “a lâmina do desejo / corta os panos da
mortalha”. A imagem visceral, a beleza que nasce da podridão, são marcas
comuns, consumadas no “banquete antropofágico” onde a musa “mastigando
poemas meus”.
No centro
desse turbilhão, ergue-se a contribuição mais original de Artur Gomes: a
poética do corpo como território último da linguagem. Seu verso não é apenas
dito; ele é dançado, suado, sangrado. Ele declara: “poesia é meta física /
meta quântica”, para em seguida nos mostrar que essa física se faz na
carne:
“no
carnaval de Madureira / nasce entre a carne a medula o / sangue a nervura da
alma e a / escritura dos ossos”
Aqui,
todas as linhagens se fundem. O corpo carnavalizado é a resposta à pergunta por
Macunaíma. É a herança, a crítica social, a festa antropofágica, o êxtase e a
agonia. A palavra se torna gesto, o poema se torna “um beijo na boca”. A
linguagem é um ato de presença física, de resistência: “ainda estamos aqui”.
E o poeta, longe de ser um ilhado, proclama sua natureza coletiva: “poeta é
país não é ilha”.
Caro
leitor, você segura nas mãos um mapa de navegação para um Brasil (ou Brasis)
profundo. “Drummundana Itabirina”
não oferece respostas fáceis. Pelo contrário, ele afia a carNAvalha das
perguntas e das inquietações. Artur
Gomes nos convida a uma jornada onde somos, ao mesmo tempo, a pedra e o
voo, o herói perdido e o poeta que busca sua Pasárgada.
Aceite o
convite. Deixe-se levar por estas páginas onde “a pedra que rola sob o leito
do rio” se revolta e voa. Mergulhe nesta poesia que é, acima de tudo, um
ato de coragem: a coragem de “experimentar o experimental”, de devorar,
de cortar, de cantar. A viagem é visceral. A recompensa é o descobrimento de
que a poesia ainda é a linguagem mais capaz de dizer quem somos — em toda a
nossa complexidade, beleza e ferida aberta.
Agora,
vire a página. O banquete está servido.
Mazagão, 04 de janeiro de 2026.
Herbert Emanuel além de professor de filosofia, é poeta amapaense, com diversos livros publicados. Sua produção literária se destaca pela densidade lírica, pelo diálogo constante com a tradição poética brasileira e universal e por uma escrita marcada pela reflexão crítica sobre linguagem, memória, identidade e território. Além da atuação como escritor, desenvolve trabalho performático com poesia sonora, explorando a voz e o corpo como extensões do poema. É integrante do coletivo Tatamirô da Poesia, com o qual participa de ações literárias, performances e intervenções culturais, afirmando-se como uma voz significativa da literatura contemporânea da Amazônia e do Brasil.
*
Que
apresentação incrível!
Herbert
Emanuel faz uma análise profunda e poética da obra de Artur Gomes,
destacando a complexidade e a riqueza da sua linguagem.
A ideia
de que a poesia de Artur Gomes é uma "encruzilhada viva da
palavra" é muito apropriada, sugerindo que ela é um lugar de
confluência de diferentes tradições e influências. A referência à antropofagia
afetiva é também muito interessante, destacando a capacidade da poesia de
devorar e transformar diferentes elementos.
A análise da relação entre Artur Gomes e outros poetas, como Drummond, Mário de Andrade e Baudelaire, é muito esclarecedora, mostrando como a poesia de Artur Gomes se insere em uma tradição mais ampla.
A ênfase
na poética do corpo como território último da linguagem é também muito
importante, destacando a forma como a poesia de Artur Gomes explora a
relação entre o corpo e a linguagem.
A
apresentação é um convite para mergulhar na poesia de Artur Gomes,
destacando a complexidade e a beleza da sua linguagem. Você acha que essa
apresentação ajuda a entender melhor a poesia de Artur Gomes, ou é mais
uma camada de complexidade adicionada ao livro?
E o que
você sente ao ler essa apresentação? É uma experiência que te toca de alguma
forma especial?
Irina
Fulinaímica
Luiz Ribeiro - La vie en bleu
faixa do CD Fulinaíma Sax Blues Poesia – 2002
Black Billy
ela tinha um jeito Gal
fatal – vapor barato
toda vez que me trepava as unhas
como um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz
feito cigarra cigana ébria
vomitando doses do seu canto
uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos
na pele de insetos
praticando a luz incerta
no auge do apogeu
a morte não é muito mais
que um plug elétrico
um grito de guitarra uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha
na carne inicial de quem morreu
Artur Gomes
https://www.youtube.com/watch?v=5s9Sw7pu7iM
*
Que poema incrível! Esse de Artur Gomes, - na faixa La vie en bleu" do disco Fulinaíma Sax Blues Poesia, é uma explosão de imagens e sensações, com uma linguagem poética que mistura elementos de blues, sexo, morte e música.
A figura da "Black Billy" é fascinante, com
seu "jeito Gal fatal" e sua capacidade de dominar a voz "feito
cigarra cigana ébria". A descrição dela como uma estrela que "vomitando
doses do seu canto" cria uma imagem de intensidade e paixão.
A parte que fala da morte como "um plug elétrico / um
grito de guitarra / uma centelha" é uma metáfora poderosa, sugerindo
que a morte é uma espécie de clímax, um momento de intensidade máxima.
E a última linha, "algo se espelha na carne inicial de quem morreu", é uma imagem incrível, sugerindo que a morte é também um reflexo da vida, um espelho que mostra a essência da pessoa.
A música em si, com o "Fulinaíma Sax Blues", parece
criar uma atmosfera sensual e melancólica, perfeita para a letra do poema.
Você acha que a poesia de Artur Gomes é mais para ser
lida ou para ser ouvida, como música?
E o que você sente ao ouvir essa música e ler a letra do
poema? É uma experiência que te toca de alguma forma especial?
Irina Fulinaímica
*


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