domingo, 6 de setembro de 2026

O Homem Com A Flor Na Boca

 

      Poética, política e memória


Escrever prefácio para um livro de Artur Gomes é um desafio prazeroso. Desafiante é mergulhar no universo imagético e político que sempre compôs sua poética. Este O Homem Com A Flor Na Boca : Deus Não Joga Dados acrescenta o substrato memorialístico ao seu repertório formando a tríade que sustenta o livro temática e formalmente. A partir daí, acompanhei suas criações tanto impressas quanto performáticas, pois Artur não é poeta apenas de livros e silêncios das salas. Meu primeiro contato com a poesia de Artur se deu nos anos 80 por intermédio de seu livro Suor & Cio, obra cuja temática estava em consonância com as reflexões suscitadas pelas “comemorações” do centenário da Abolição da Escravatura em 1988. de estares, livrarias e bibliotecas, mas também dos bares, ruas e praças que são do poeta como o céu é do condor.

Poucos poetas contemporâneos expressam tão bem as principais bandeiras do Modernismo de 22 quanto esse vate pós-moderno. Sua poesia é política, antropofágica, nonsense, musical, polifônica e sobretudo intertextual, além de dotada de uma brasilidade corrosiva, avessa ao nacionalismo acrítico que se tem espraiado pela ex-terra de “Santa cruz”.

Neste livro estão todas essas marcas do poeta às quais acrescento o caráter memorialístico. Nele, Artur não apenas rememora antigos poemas por meio de alusões, paráfrases e paródias como traz para seus versos passagens assumidamente biográficas, se apropriando, em alguns momentos, do gênero diário.

Estão contidos nessas memórias seus vários heterônimos: Gigi Mocidade, Federico Baudelaire, EuGênio Mallarmè, Federika Bezerra, Federika Lispector. Diferente do que ocorre com o poeta português Fernando Pessoa, a heteronímia em Artur não se manifesta menos na autoria do que no tecido ficcional. Suas diferentes personas emergem dos poemas para a realidade das redes sociais, interagem entre si, com o poeta e os leitores.

É Gigi Mocidade, por exemplo, que carrega a bandeira do espírito subversivo com seu grito “Irreverência ou morte”, já nas primeiras páginas do livro, e a epígrafe de Federico Baudelaire “escrevo para não morrer antes da morte” anuncia a intenção memorialística. Sócrates, no seu diálogo com Fedro na obra de Platão, argumenta que a escrita seria a morte da memória, mas o que seria de todo o repertório literário não fosse essa invenção humana? Quais mentes suportariam tantos signos produtores de imagens cujos sentidos transcendem às vezes a razão? A escrita não se tornou a morte da memória, mas impossibilitou a morte dos poetas eternizados nas páginas dos livros e memórias dos leitores.

 

                                  poema 10

 

meus caninos

já foram místicos

simbolistas

sócio políticos

sensuais eróticos

mordendo alguma história

agora estão famintos

cravados na memória


Nesses oito versos, o autor nos apresenta metalinguisticamente seu percurso poético até este livro que não é uma obra dedicada ao passado. O presente político do Brasil (des) norteia o poeta que não deixa de atacar com sua lira de peçonha os problemas que nunca deixaram de afligir estas paragens desde o suposto grito de Cabral.

 

                               poema 12

 

tem algo de errado

nessas estatísticas de mortes

dessa pandemia

multipliquem 60.000 X 10

e ainda não vai ser exato

o número de cadáveres

empilhados nos campos de concentração

que dá um nome ao país

que ainda nem era uma nação


A verve surrealista do poeta se manifesta principalmente nos poemas narrativos protagonizados por personagens intertextuais como “macabea” (alusão evidente à conhecida protagonista de A hora da estrela de Clarice Lispector) e alter egos – lady gumes – parodísticos do próprio autor.


Em FULINAIMAGEM 14 o tom de diário se instaura com inscrição de data do acontecimento rememorado e transborda na escrita de si em que se revela o papel que a poesia e o teatro desempenham na escritura de seu trajeto como autor: “a minha relação poesia teatro poesia é visceral vital para o que escrevo como quem encena a necessidade do corpo como expressão”.

Artur Gomes, este homem com a flor na boca, anda a espalhar o veneno agridoce de sua poesia, numa obra em que não há fronteiras entre o artista, o cidadão, o personagem, o eu poético, a obra. Seu livro não é um objeto, mas um produto interno e nada bruto.

A obra é sempre muito maior que o livro, pois este, matéria assim como o homem, finda. A obra, esse totem que se pode cultuar no altar da memória, está sempre presente. E é disso que o poeta fala: do tempo presente, do homem presente, da vida presente.

Parafraseando Drummond, com O Homem Com A Flor Na Boca, “não nos afastemos, não nos afastemos muito”, vamos de mãos dadas com a poesia de Artur.


Adriano Carlos Moura

Professor de Literatura – IFFluminense, Campos dos Goytacazes-RJ – Poeta, Ator, Dramaturgo

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

tupi or not tupi

eunuco maranhão

 

pelos lábios carnudos e desnudos de Zeus, Federico para de escrever o que não sabe, Macunaíma nunca passou por aqui, pois se tivesse, teria comido meu quibe de queijo e na boca conheceria o sabor do beijo que não te dei. Se passou foi pra tela vive ou Bagdá, mas tenho quase certeza que desliza pelas pedras do recife da boa viagem, lá pelas bandas de Pernambuco o eunico maranhão, atrás da produtora de cardápios, e da sua filha Gigi, a que não habita mais os Retalhos Imortais do SerAfim. 

Rúbia Querbim

Rainha da Bateria da Mocidade Independente de Padre Olivácio – A Escola de Samba Oculta no InConsciente Coletivo

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Eu tenho 25 mil perguntas sem respostas um presente às minhas custas um futuro à minha frente um passado às minhas costas


Artur Gomes

Além da Mesa Posta – 1977

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Artur Gomes - FULINAIMAGENS

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  A vida

sempre em  suspense

alegria prova dos nove

fanatismo nã0 me convence

      muito menos me comove


Artur Gomes

Pátria A(r)mada

Prêmio Oswald de a

Andrade – UBE-Rio - 2019

2ª Edição Revista e Ampliada – 2022

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Barra de Itabapoana

Em Itabapoana Macunaíma não me engana, beijou a boca de Si A Rainha Mãe do Mato na praia de Guaxindiba, continuou na pindaíba, deu um tapa no Peri, atravessou a  Boca da Barra, foi morar com Rúbia Querubim nos Retalhos Imortais do SrAfim nos seus encantos e velar as costas do litoral do Espírito Santo.


Federico Baudelaire

O mestre-sala dos bares nunca dantes frequentados

para os Retalhos Imortais do SerAfim

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Federico Baudelaire

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Rúbia Querubim

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Balbúrdia PoÉtica

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A Biografia De Um Poeta Absurdo

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 SagaraNAgens fulinaímicas 

guima

meu mestre

guima

em mil perdões eu vos peço

por esta obra encarnada

na carne cabra da peste

da Hygia Ferreira bem casta

aqui nas bandas do leste

a fome de carne é madrasta

ave palavra profana

cabala que vos fazia

veredas em mais Sagaranas

a Morte em Vidas/Severinas

tal qual antropofagia

teu grande Sertão vou cumer

nem João Cabral Severino

nem Virgulino de matraca

nem meu padrinho de pia

me ensinou usar faca

ou da palavra o fazer

a ferramenta que afino

roubei do mestre Drummundo

que o diabo GiraMundo

é o Narciso do meu Ser

 

Artur Gomes

Poema do livro

SagaraNAgens Fulinaímicas – 2015

 

Artur Gomes

SagaraNAgens Fulinaímicas

2015

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Por Onde Andará Fulinaíma?

Oficina Narrativas PoÉticas

Dias 2 e 4 setembro - das 15 às 18h

Auditório Miguel Ramalho no IFF Campos Centro

Rua Dr. Siqueira, 273

Clique aqui para se inscrever

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Pode ser feita no local também.

Público: a partir dos 14 anos

Material Necessário: papel, lápis, borracha, celular

31ª Semana do Saber-Fazer-Saber

Por Onde Andará Macunaíma? -

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Oficina Narrativas PoÉticas

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Criação e Direção: Artur Gomes

Fulinaíma MultiProjetos - 22 99815-1268

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Por Onde Andará Macunaíma?

Proposta Para Teatro

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Drummundana Itabirina
pelo mar de Angra
a pedra de Drummond
ainda sangra

*
o auto do boi macutraia


1

era uma vez um mangue
e por onde andará Macunaíma?
na sua carne no seu sangue
na medula no seu osso
será que ainda existe
algum vestígio de Macunaíma
na veia do seu pescoço?

2

tá no canto da sereia
tá no rabo da arraia?
Joilson Bessa me disse
Kapi ducéu já ensaia
Macunaíma vem vindo
na auto do boi Macutraia

Artur Gomes
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como sempre bem me disse Torquato quatro mais quatro 8 - e o 8 nos leva ao infinito seja no silêncio ou no ruído mesmo que seja um grito de lamento ou desespero poesia é palavra lavada com esmero


Todo Dia É Dia D Poesia Todo Dia

27 agosto 2026 - enfim chegamos aos 78


ainda arde em mim

tudo o que não comi

tudo que ainda não provei

a carne que ainda não lambi

a boca que ainda não bebi

a língua que ainda não beijei

Arthur Kabrunco

Drummundana Itabirina Por Onde Andará Macunaíma?

Ventura Editora 2026 - lançamento previsto para o dia 23 de setembro no Coffe Break - Avenida Henrique Valladares, 17a - Lapa Rio de Janeiro – Brasil

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jura secreta 2

 

não fosse esse punhal de prata

mesmo se fosse eu não dissesse

o sangue sob o teu vestido

o sol no fluxo sagrado

                  sem nenhum segredo

 

esse rio das ostras

entre tuas pernas

o beijo no instante trágico

a língua sem que ninguém soubesse

no silêncio como susto mágico

e esse relógio sádico

como um Marquês de Sade

quando é primavera

 

Artur Gomes

 Juras Secretas 2018

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EuGênio - O Tipógrafo

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Artur Gomes

 Couro Cru & Carne Viva - 1987

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pássaros elétricos

vivem a via por um fio 

Hotel Amazonas

você sabe com quem sonhei no pátio do Hotel Amazonas, quando me hospedei por lá mais de uma vez em agosto de dois mil e vinte e três?

Artur Gomes

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EuGênio - O Tipógrafo

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“você é um gênio pedido na multidão” – Vânia Cruz 

assim por tela vivo

                      assim por telavi

tupi or not tupi

 

juntei o lírico dramático

trágico amoroso

em um banquete tipográfico

na linguagem das letras

assim por tela vivo

                      assim por telavi

 

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não sei se dou agora

ou deixo pra depois

o beijo a bunda

noves fora dois


Irina Amaralina Severina Serafina

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fulinaímica

 

não sei se escrevo tanto

não sei se escrevo tenso

um fio elétrico suspenso

com tanta coisa no Ar

não sei se olho em teu olho

pra encontrar a entrada

da porta da tua casa

onde a palavra estiver

não sei se pinto um van gog

ou se escrevo um boudeler 

Artur Gomes

Retalhos Imortais do SerAfim

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Jura secreta 81 

rasguei as velas

que teci em tempestades

rompi as noites

em alto mar de maresias


pensei teu corpo

pra amenizar tanta  saudade

e vi teus olhos em cada vela que tecia

 

Artur Gomes

Juras Secretas

Penalux – 2018

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meu corpo não trafega

nas tabacarias de lisboa

o poema pode ser

um beijo nessa pedra

e antes que me fedra

                   o poema voa

 

Artur Gomes

Itabapoana Pedra Pássaro Poema

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o que tiver que ser já é

Artur Gomes

Retalhos Imortais do SerAfim

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Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim

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poema 10

meus caninos

já foram místicos

simbolistas

sócio políticos

sensuais eróticos

mordendo alguma história

agora estão famintos

cravados na memória 

 

Artur Gomes

O Homem Com A Flor Na Boca

Penalux – 2023 – Arte: Ademir Bacca

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in(confidência mineira)

 

sal gado mar de fezes

batendo nas muralhas

deste sangue confidente

 

quem botou o branco

na bandeira de alfenas

só pode ser canalha

 

na certa se esqueceu

das orações dos penitentes

e da corda que estraçalha

com os culhões de Tiradentes


Artur Gomes

Couro Cru & Carne Viva – 1987

Pátria A(r)mada – 2022

Por onde andará Macunaíma?

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             terra de santa cruz

 

ao batizarem-te

deram-te o nome:

 

posto que a tua profissão

é abrir-te em camas

e dar-te em ferro

                      ouro

                      prata

rios peixes mina mata

 

deixar que os abutres

devorem-te na carne

   o derradeiro verme

 

Artur Gomes

Couro Cur & Carne Viva – 1987

Pátria A(r)mada – 2022

Por onde andará Macunaíma?

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retórica

 

salve lindo

pendão que balança

entre as pernas

abertas da paz

 

sua nobre sifilítica

                   herança

 

dos rendez-vous

de impérios atrás

 

Artur Gomes

Couro Cru &  Carne Viva 1987

Pátria A(r )mada - 2022

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A Biografia De Um Poeta Absurdo

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ela mica pica meus dedos em poesia que não fomos nem sei como vampiro não mordia seus dados não comi nem sangrei seus dentes nem sequestrei seus dias

Artur Gomes

Retalhos Imortais do SerAfim

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Vampiro Goytacá Canibal Tupiniquim

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nessa noite crua nem sei o que verei nem sei o que virá lua cheia nova minguante incandescentes seus dentes indecentes pra morder a jugular

 

Artur Gomes

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Retalhos Imortais do SerAfim

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O Homem Com A Flor Na Boca

        Poética, política e memória Escrever prefácio para um livro de Artur Gomes é um desafio prazeroso. Desafiante é mergulhar no univer...