quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

BraziLírica Pereira : A Traição Das Metáforas

A Traição Do Lirismo 

Artur Gomes feito gume, é máquina devoradora do mundo. Mastiga coisas, afetos, pessoas, rumina e afia os elementos em sua navalha verbal e os transforma na mais pura poesia. Dono de uma criatividade em permanente ebulição, hábil no verbo e da disposição visual do mesmo no espaço suporte – papel ou pano – bandeira a gotejar palavra que, não raro, é também palco e gesto, (in)cenação a complementar e enriquecer o que a palavra muda já disse, a dizer outra coisa que é também a mesma coisa: poesia.

Poeta em tempo integral, como poucos ousaram ser, Artur Gomes constrói, sem pressa (os anos não parecem pesar – na carne nem no espírito) a sua delirante e criativa poesia, colagem da colagem, (re)encarnação mais do que perfeita da antropofagia como nem mesmo o velho Serafim sonhou.

Nada, absolutamente nada escapa à sua devastadora e permanente passagem, andarilho de poderosa voz a evangelizar para a poesia. Este BraziLírica Pereira : A Traição Das Metáforas é a continuação de um enredo de há muito ensaiado. Seus atrevidos personagens já apareciam em 20 Poemas Com Gosto De JardiNÓpolis & Uma Canção Com Sabor De Campos. Legítimas apropriações retiradas de suas viagens brasílicas, figuras que a sua generosidade literária faz questão de homenagear.

Na passarela poética de Artur, tanto podem desfilar Mallarmè, Faustino, Dalí, Oswald, Baudelaire, Drummond, Pound, Ana Cristina César e o sempre lembrado Uilcon Pereira, a quem o novo livro é dedicado, como personagens anônimas encontradas nas quebradas do mundaréu, além dos amigos, objeto constante de sua poesia. Neste caldeirão, “olho gótico TVendo”, entra até um despudorado acróstico, rimas milionárias, em permanente celebração. O poeta Artur, disfarçado de concreto, celebra descaradamente a amizade e o lirismo e ri-se de quem tenta classificá-lo.

Evoé, Artur

Dalila Teles Veras

BraziLírica Pereira : A Traição Das Metáforas

Alpharrabio Edições –

Santo André-SP – 2000

www.braziliricapereira.blogspot.com

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Que texto incrível!  A descrição de Artur Gomes como um "gume, máquina devoradora do mundo" é perfeita para capturar a essência de sua poesia, que é ao mesmo tempo destrutiva e criativa.

A menção à sua habilidade em transformar palavras em poesia é um testemunho de sua maestria como poeta. E a imagem de sua poesia como uma "bandeira a gotejar palavra" é uma metáfora poderosa para a forma como sua obra se desdobra no espaço.

A referência à antropofagia é interessante, pois sugere que a poesia de Artur Gomes é uma forma de devorar e transformar a cultura e a história, criando algo novo e original. 

O texto de Dalila Teles Veras, também destaca a generosidade e a abertura de Artur Gomes em relação à cultura e à arte, ao incluir referências a outros artistas e personagens em sua obra.

E a imagem final, com o poeta "disfarçado de concreto" celebrando a amizade e o lirismo, é uma forma perfeita de capturar a essência de sua poesia, que é ao mesmo tempo séria e brincalhona, profunda e superficial.

Você acha que a poesia de Artur Gomes pode ser considerada uma forma de resistência cultural, uma forma de desafiar as convenções e criar algo novo e original?

Federika Lispector

*

                                inquisição:

por sermos duas metáforas novas, frescas, gostosas, desoprimidas  e sem qualquer pseudo complexo de fidelidade é que estamos aqui em brazilírica pereira, por sugestão da uilcona biúka diante desta outra inquisição. não, ainda não fomos apresentadas a lady federika bezerra. mas,  a conhecemos pela sua fama internacional de porta/bandeira. macabea não pode se sentir frustrada pela nossa decisão de estarmos aqui neste confessionário. Primeiro, porque não temos  e nunca tivemos nenhum compromisso com ela. segundo, é que alinhamos em uma outra frente liberal, e desfrutamos  de todo direito de ir e vir, ter e dar prazer, gozar da forma que melhor nos convier. Sexo? é uma opção de  gosto mesmo. até no palco por quê não? irônicas? sim, nosso mestre SerAfim nos ensinou que do sarcasmo nasce a grande arte. mas o importante é que nós como metáforas não precisamos estr somente em entre/linhas, estamos também nas entre/tuas, entre/minhas e não se trata de traição, procuramos fazer algo diferente, por exemplo, do que já vimos em filmes de godard, construídos em larga medida  só com citações e referências, apoiamo-nos nas coplagens como elementos básicos para ultrapassá-los . agimos como uma espécie de conspiradoras conscientes dos bens cultuais e materiais que nos pertencem como patrimônios da humanidade.

 

Artur Gomes

In BraziLírica Pereira: A Traição das Metáforas – Alpharrabio Edições – 2000

leia mais no blog

https://fulinaimagens.blogspot.com/

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Que texto incrível!  A linguagem é poderosa e subversiva, como se as metáforas estivessem se rebelando contra a opressão e a censura. A ironia e o sarcasmo são usados de forma magistral para criticar a sociedade e a cultura.

A referência à Inquisição é um lembrete sombrio da história de repressão e censura que o Brasil (e o mundo) já enfrentou. E a declaração de independência das metáforas, dizendo que não têm compromisso com Macabéa e que estão ali por escolha própria, é um manifesto de liberdade e autonomia.

O texto também é uma reflexão sobre a arte e a criatividade, sobre como as metáforas podem ser usadas para subverter e transgredir, para criar algo novo e diferente. E a menção a Godard e às citações é um comentário sobre a influência da cultura e a necessidade de inovar e criar algo próprio.

Você acha que esse tipo de linguagem e abordagem pode ser uma forma de resistência e empoderamento para os artistas e escritores que enfrentam censura e opressão?

Irina Fulinaímica

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Artur Gomes me confessa que a partir deste livro: BraziLírica Pereira : A Traição das Metáforas, sua linguagem poéticas dá um salto, quando ele começa a usas suas “metáforas”, como forma de se livrar da “opressão” e da “censura” que a sua arte vinda sofrendo até então, misturando textos em verso e prosa, onde o real se torna ficção e a ficção brinca com a realidade. E é neste livro também que ele começa a utilizar das referências aos grandes mestres da arte, seja na música no cinema nas artes plásticas e na poesia, criando um grande painel de “poéticas multilinguagens”

Luna de Oliveira

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Que revelação!  Artur Gomes parece ter encontrado uma forma de libertar sua criatividade e expressão artística através das "metáforas" em BraziLírica Pereira : A Traição das Metáforas. É como se ele tivesse descoberto um código secreto para driblar a censura e a opressão, usando a linguagem poética para dizer o que não podia ser dito abertamente.

 

A mistura de textos em verso e prosa, a fusão do real e da ficção, cria um universo único e fascinante. E a referência aos grandes mestres da arte é uma forma de homenagear e dialogar com a tradição, ao mesmo tempo em que se cria algo novo e original.

A expressão "poéticas multilinguagens" é perfeita para descrever essa abordagem, que mistura diferentes linguagens e formas de expressão para criar um todo coeso e poderoso.

Você acha que essa abordagem de Artur Gomes pode ser um exemplo para outros artistas que buscam expressar-se de forma criativa e autêntica, mesmo em contextos de opressão ou censura?

Irina Fulinaímica

*

uma outra

não deveria, portanto, macabea vociferar aqui sua ira, acusando-nos veladamente de traidoras, sem assumir de fato em atitude pública a destilação desse veneno como palavra que não entra em cena.

as belas letras, para nós, começaram através das letras belas, narcisas pelos próprios nomes: metáforas. E por fidelidade a federika não traímos macabea, vamos não fazemos parte de uma mesma concepção de que a palavra parte, e as letras que pretendemos belas não são simplesmente nossas, muito menos dela. podemos constatar com gratidão que emergem das lendas, fábulas, crônicas e contos, poemas de uma visão de mundo bem nítida e pessoal. talvez, quiçá, quem sabe única reflexão de ruidurbanos, restos de gravuras e resíduos tipográficos. ou seja: uma série de gestos amorosos, eróticos de novo, repletos de ironias sensuais, doce fervor, fogo de malícias explosão de gozo. por sinal, diga-se de passagem, que essas dimensões éticas, jurídico-morais, nunca nos interessaram. nossas relações com a propriedade privada, em todas as suas formas e cristalizações históricas, sempre foram tranquilas e sem remorsos. 

Artur Gomes

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Que texto incrível!  A resposta às acusações de traição é feita de forma magistral, com ironia e sarcasmo, mostrando que as "metáforas" não têm compromisso com ninguém, apenas com a própria arte.

A declaração de que as "belas letras" começaram com as "letras belas, narcisas" é uma afirmação de autonomia e independência, mostrando que a arte não precisa de justificativas ou explicações.

A referência à "fidelidade a Federika" é uma forma de mostrar que a lealdade é para com a arte e a liberdade de expressão, não para com pessoas ou ideologias. E a afirmação de que as "letras" não são propriedade de ninguém é um manifesto de liberdade criativa. 

O texto também é uma celebração da sensualidade e do erotismo, mostrando que a arte pode ser uma forma de expressão e libertação. E a ironia sobre as "dimensões éticas, jurídico-morais" é uma crítica à hipocrisia e ao moralismo que muitas vezes tentam limitar a arte.

Você acha que essa abordagem de Artur Gomes pode ser um exemplo para os artistas que buscam expressar-se de forma autêntica e sem medo de julgamentos ou críticas?

Irina Fulinaímica

*

cidade veracidade

                     campos 190

 

transverso atravesso esta cidade

que me atravessa em seu silêncio

ouço o gemido dos teus ecos

por ruas avenidas e vielas

sinto saudade dos terreiros de jongo

nas favelas e as lavadeiras

das pinturas aquarelas

em teus aceiros fiz meus trilhos

em cada trilha dos meus traços

no encontro ao ururau no cais da lapa

teu por do sol pode ser beijo

                           ou também tapa

 

Artur Gomes

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Artur Gomes - FULINAIMAGENS

https://fulinaimagens.blogspot.com/

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A imagem apresenta o poeta Artur Gomes  com um braço levantado e o texto “Balbúrdia Poética / Por onde andará Artur Gomes?”, sugerindo uma referência ao projeto do poeta “Por Onde Andará Macunaíma”.

O poema que você compartilhou é uma expressão lírica que evoca a cidade, memórias e sentimentos, mencionando elementos como “terreiros de jongo”, “favelas”, “lavadeiras” e “pinturas aquarelas”. Ele reflete uma jornada pessoal e artística dentro da cidade, conectando experiências e emoções.

 Você quer saber mais sobre Artur Gomes ou sobre o significado específico do poema?

Irina Fulinaímica

*

Me fale um pouco mais sobre o poema de Artur Gomes acima.

EuGênio Mallarmè 

*

Entendi que você quer saber sobre o poema e sua relação com Artur Gomes, que aparece na imagem.

Artur Gomes é um poeta brasileiro cuja obra muitas vezes explora temas de identidade, memória e a experiência urbana, como você pode ver no poema: 

_cidade veracidade campos 190 transverso atravesso esta cidade que me atravessa

em seu silêncio ouço o gemido dos teus ecos

por ruas avenidas e vielas sinto saudade dos terreiros de jongo nas favelas

e as lavadeiras das pinturas aquarelas

em teus aceiros fiz meus trilhos

em cada trilha dos meus traços no encontro ao ururau no cais da lapa

teu por do sol pode ser beijo ou também tapa_

O poema usa uma linguagem poética e sensorial para expressar como a cidade influencia o eu do poeta, misturando imagens de lugares e experiências pessoais.

 

Você quer saber mais sobre a obra de Artur Gomes ou sobre o contexto específico desse poema?

Irina Fulinaímica

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Como você analisaria este poema?  

Eugênio Mallarmè

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O poema de Artur Gomes é uma expressão poética que evoca a cidade como um espaço de memória e identidade. Vamos analisar alguns pontos:

 

1. "atravesso esta cidade que me atravessa": Aqui, o poeta sugere uma relação profunda e recíproca com a cidade. Ele não apenas caminha pela cidade, mas a cidade também o influencia e o transforma.

2. "ouço o gemido dos teus ecos": O uso de "gemido" sugere uma dor ou uma saudade, e os "ecos" podem representar as memórias e histórias da cidade que ressoam no poeta.

3. "terreiros de jongo nas favelas": O jongo é uma dança afro-brasileira, e a menção a ele traz uma dimensão cultural e histórica à poesia, conectando a cidade a suas raízes afro-brasileiras.

4. "teu por do sol pode ser beijo ou também tapa": Essa linha sugere ambiguidade e complexidade na relação do poeta com a cidade. O pôr do sol pode ser um momento de beleza ("beijo") ou de violência ("tapa"), refletindo as dualidades da vida urbana.

O poema é uma jornada pessoal e sensorial pela cidade, misturando elementos de memória, cultura e experiência.

Você gostaria de explorar mais algum aspecto desse poema ou quer saber sobre o contexto em que foi escrito?

Irina Fulinaímica

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Da Cacomanga para o mundo passando pela Tapera Ururaí Lagamar Ibitioca pulando feito pipoca para se equilibrar na corda bamba em terreiros nem sempre de samba quando o jongo e capoeira eram defesa na luta com as  palavras nem sempre amenas pacíficas cordiais muitas vezes tão ásperas que o jeito mesmo era o silêncio para não xingar o próprio vento que apertava o calcanhar na vida nem sempre mar de rosas quase sempre espinhos furando a sola dos sapatos

Artur Gomes

A Biografia De Um Poeta Absurdo

leia mais no blog

https://fulinaimargem.blogspot.com/

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Entendi que você quer saber mais sobre Artur Gomes e seu trabalho, e você compartilhou um texto poético e biográfico sobre ele. 

O texto faz uma jornada geográfica e existencial, mencionando lugares como "Cacomanga", "Tapera Ururaí Lagamar Ibitioca", que parecem ser referências a locais ou experiências que influenciaram a vida e obra de Artur Gomes. A descrição de "pular feito pipoca" e "equilibrar na corda bamba" sugere uma vida de desafios e adaptações, onde o poeta usa palavras como defesa e expressão.

A menção a "jongo e capoeira" reforça a conexão com a cultura afro-brasileira e a resistência, enquanto "as palavras nem sempre amenas pacíficas cordiais" indicam que sua poesia pode ser áspera e reflexiva sobre as dificuldades da vida. 

O texto também menciona um blog (https://fulinaimargem.blogspot.com/)

 onde você pode ler mais sobre a biografia de Artur Gomes, um poeta descrito como "absurdo", sugerindo uma obra que desafia convenções.

Você gostaria de saber mais sobre a obra específica de Artur Gomes, como seus poemas mais famosos, ou sobre o contexto cultural em que ele escreve?

Irina Fulinaímica

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Artur Gomes In Pessoa

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SampleAndo

 

o poema pode ser um beijo em tua boca

carne de maçã em maio

um tiro oculto sob o céu aberto

estrelas de neon em Vênus

refletindo pregos no meu peito em cruz

na paulista consolação na água branca barra funda

metal de prata desta lua que me inunda

num beijo sujo como a estação da luz

nos vídeos.filmes de TV

eu quero um clipe

nos teus seios quentes

uma cilada em tuas coxas japa

como uma flecha em tuas costas índia

ninja, gueixa eu quero a rota teu país ou mapa

teu território devastar inteiro

como uma vela ao mar de fevereiro

molhar teu cio e me esquecer na lapa

 

Artur Gomes

Juras Secretas

Editora Penalux – 2018

https://www.instagram.com/p/DP37Gm3jdvH/

meta metáfora no poema meta

 

como alcançá-la plena

no impulso onde universo pulsa

no poema onde estico plumo

onde o nervo da palavra cresce

onde a linha que separa a pele

é o tecido que o teu corpo veste

 

como alcançá-la pluma

nessa teia que aranha tece

entre um beijo outro no mamilo

onde aquilo que a pele em plumo

rompe a linha do sentido e cresce

onde o nervo da palavra sobe

o tecido do teu corpo desce

onde a teia que o alcançar descobre

no sentido que o poema é prece

 

Artur Gomes

poema do livro Juras Secretas

Litteralux – 2018

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https://braziliricapereira.blogspot.com/

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Que poema incrível!  Acho que a "meta metáfora" aqui é como uma busca por uma linguagem que transcende o próprio poema, uma espécie de fusão entre palavra e corpo, onde o sentido se expande e se rompe. Artur Gomes parece estar explorando a ideia de que o poema é um espaço de encontro, um lugar onde as fronteiras entre o eu e o outro se dissolvem. 

A imagem da "aranha que tece entre um beijo outro" é particularmente interessante, sugere uma teia de desejos e conexões que se entrelaçam. E a ideia de "alcança-la pluma" é como buscar uma leveza, uma delicadeza que é ao mesmo tempo uma forma de profundidade.

O que você acha que é o papel do corpo nesse poema? E como você vê a relação entre a palavra e o sentido aqui?

Irina Fulinaímica

*

Eu fico muitas vexes intrigado com a poesia de Artur Gomes, parece que ele e sua poesia estão sempre em movimento, nunca estão no mesmo lugar nem com o mesmo estado de espírito ni momento em que escreve. Fica difícil para gente imagina o que realmente o coloca em "estado de poesia"

EuGênio Mallarmè

*

Eu fico muitas vezes intrigado com a poesia de Artur Gomes, parece que ele e sua poesia estão sempre em movimento, nunca estão no mesmo lugar nem com o mesmo estado de espírito ni momento em que escreve. Fica difícil para gente imagina o que realmente o coloca em "estado de poesia"

EuGênio Mallarmè

*

Acho que é exatamente isso!  A poesia de Artur Gomes parece ter uma energia própria, como se estivesse sempre em ebulição. É como se ele estivesse constantemente se reinventando, explorando novos territórios, tanto físicos quanto emocionais.

Talvez o que o coloque em "estado de poesia" seja justamente essa capacidade de se deixar levar, de se abrir para as experiências e sensações, sem medo de se perder. Ele parece estar sempre à espreita, capturando fragmentos de vida e transformando-os em palavras.

Acho que isso é o que torna sua poesia tão instigante: a sensação de que estamos sendo levados numa jornada sem rumo definido, mas com uma intensidade e uma paixão que nos arrastam.

Você acha que essa é uma característica da poesia contemporânea em geral, ou é algo mais específico de Artur Gomes?

Irina Fulinaímica

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distante teresina 

numa tarde de dezembro não era apenas cajuína numa triste e distante teresina EuGênio MallarMè tinha entre as mãos os seios de Clarice, enquanto Jommard Muniz de Brito tecia suas palavras nos tecidos sobre a pele na poesia experimental Torquato  dentro, 10 de dezembro de 1994 a Mostra Visual de Poesia Brasileira em teresina colocando fogo na fornalha enquanto Federico Baudelaire afiava mais uma vez a carNAvalha logo depois que soubemos no mercado da morte de Tom Jobim.

 

Artur Gomes

*

Obs.: esse poema ele escreveu logo depois que soubemos no mercado da morte de Tom Jobim

                   EuGênio Mallarmè 

*

Que poema incrível!  Parece Artur Gomes  está descrevendo um momento de encontro entre poetas e artistas, uma espécie de confluência de ideias e emoções em Teresina, numa tarde de dezembro.

A menção a Clarice Lispector e Torquato Neto é particularmente interessante, sugere uma conexão com a literatura brasileira e a poesia experimental. E a imagem de Jommard Muniz de Brito "tecendo suas palavras nos tecidos sobre a pele" é uma metáfora poderosa para a criação poética.

A referência à morte de Tom Jobim também é significativa, parece que o poema está capturando um momento de reflexão e homenagem à música e à cultura brasileira.

E o trocadilho com "carNAvalha" é genial! Parece que o poema está celebrando a vida e a arte, mesmo em meio à morte e à tristeza.

Você acha que esse poema é uma forma de homenagem a Tom Jobim, ou é mais uma reflexão sobre a própria poesia e a arte?

Irina Fulinaímica


Com certeza sinto/vejo/penso esse poema como uma forma de reflexão sobre a triste notícia e ao mesmo tempo a euforia dos poetas em manifesto: A Mostra Visual De Poesia Brasileira, estava acontecendo em sua 11ª Edição em Teresina, numa parceria com o poeta piauiense Rubervam Du Nascimento, tínhamos acabado de voltar do cemitério onde fomos visitar o túmulo de Torquato Neto, em cia do músico Carlos Careqa, visita sugeria pelo poeta poeta Jota Medeiros. Acredito também que a música “Cajuína”, de Caetano Veloso, “existirmos a que será que se destina”, deve também tê-lo levado a criação desse poema.

 

EuGênio Mallarmè

*

Acho que você está mergulhado na história por trás desse poema!  A Mostra Visual de Poesia Brasileira em Teresina, com a presença de poetas como você, Jommard Muniz de Brito e outros, deve ter sido um momento incrível de troca e criação.

A visita ao túmulo de Torquato Neto, com Carlos Careqa e Jota Medeiros, sugere uma conexão forte com a poesia e a música brasileira. E a música "Cajuína" de Caetano Veloso, com sua letra que fala de existir e destino, parece ter influenciado mesmo a criação do poema.

O poema então ganha um contexto ainda mais rico: é uma reflexão sobre a morte de Tom Jobim, mas também uma celebração da poesia, da música e da cultura brasileira. E a menção a "distante Teresina numa tarde de dezembro" cria uma atmosfera meio melancólica, meio eufórica, como se a poesia estivesse capturando um momento de encontro e reflexão.

Você acha que a poesia é uma forma de manter viva a memória de artistas como Tom Jobim e Torquato Neto?

Irina Fulinaímica

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Outro detalhe na poesia de Artur Gomes, que não me foge a observação, é a musicalidade, as sonoridades fonéticas com rimas muitas vezes perturbadoras, devido a sua originalidade, como por exemplo neste poema do livro "Couro Cru & Carne Viva”, de 1987:

EuGênio Mallarmè

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A musicalidade e as sonoridades fonéticas em Artur Gomes são incríveis!  A rima "baiafro" com "com ódio mortal de ianque" é perturbadora mesmo, cria um impacto forte. A maneira como ele brinca com as palavras e os sons é como uma espécie de revolta poética, uma crítica à realidade política e social.

O poema parece estar falando de um "sonho rola no parque" que é manchado por sangue e ódio, e a referência ao "terceiro mundo" e ao "ianque" é uma crítica à opressão e ao imperialismo. A musicalidade do poema ajuda a reforçar essa mensagem, criando um ritmo meio sombrio, meio revoltado.

Você acha que a poesia de Artur Gomes é uma forma de resistência política, ou é mais uma expressão de sentimentos e emoções pessoais?

Irina Fulinaímica

*

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

nas encruzilhadas do SerAfim

afiando a carNAvalha

por entre as trilhas

enquanto me der na telha

por onde a língua não tralha

e a lâmina do desejo

corta os panos da mortalha

 

Artur Gomes

In Drummundana Itabirina

: Por Onde Andará Macunaíma?

leia mais no blog

https://uilconpereira.blogspot.com/

* 

Que imagem incrível!  A foto mostra Artur Gomes  sentado à mesa, com um copo de vinho e um livro, parecendo estar em um momento de reflexão ou inspiração.

E o poema que você compartilhou é mais um exemplo da linguagem poética de Artur Gomes, com sua mistura de palavras e imagens que desafiam a interpretação. A "carNAvalha" é uma imagem poderosa, sugerindo uma ferramenta afiada para cortar e transformar a realidade.

A ideia de "afiando a carNAvalha por entre as trilhas" sugere um processo de refinamento e aprimoramento da linguagem poética, enquanto "a lâmina do desejo corta os panos da mortalha" é uma metáfora para a forma como o desejo pode romper com as limitações e convenções.

A referência ao livro "Drummundana Itabirina: Por Onde Andará Macunaíma?" é um convite para explorar mais a obra de Artur Gomes, e o link para o blog uilconpereira.blogspot.com é uma oportunidade para ler mais sobre o assunto. 

Você já leu o livro "Drummundana Itabirina: Por Onde Andará Macunaíma?" ou está planejando lê-lo?

E o que você sente ao ler a poesia de Artur Gomes? É uma experiência que te inspira a refletir sobre a linguagem e a realidade?

                        Irina Fulinaímica

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rente a pele contra o muro

        eu te grafito no escuro

 

Artur Gomes

In Couro Cru & Carne Viva

- 1987

leia mais no blog

A Biografia de Um Poeta Absurdo 

https://fulinaimargem.blogspot.com/

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A frase "rente a pele contra o muro" é uma imagem poética poderosa!

Ela sugere uma proximidade intensa, uma espécie de fusão entre o eu e o outro, ou entre o corpo e o ambiente. A ideia de "pele contra o muro" pode ser interpretada como uma metáfora para a vulnerabilidade, a exposição ou a resistência.

A palavra "rente" também é interessante, pois implica uma proximidade extrema, como se a pele estivesse quase se fundindo com o muro. Isso pode sugerir uma sensação de intensidade emocional ou física.

No contexto da poesia de Artur Gomes, essa frase pode estar relacionada à exploração da identidade, do corpo e da relação com o mundo ao redor.

O que você acha que essa frase significa para você?

                  Irina Fulinaímica

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Quando ele completa a fase/verso: “eu te grafito no escuro” ele demonstra a sua intenção intensão, grafitar  o “corpo” da musa contra o muro, provocar, tocar, com pincel e tinta a carne alheia. O que acha?

Luna de Oliveira

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Que interpretação incrível! Você está lendo a frase como um ato de criação, um gesto de amor e de apropriação, onde o poeta "grafita" o corpo da musa no escuro, como se estivesse escrevendo um poema ou um grafite na parede.

A ideia de "grafitar" o corpo da musa é uma imagem poderosa, sugerindo uma forma de posse, de marcação, de deixar uma marca indelível no outro. E o fato de ser "no escuro" adiciona uma camada de intimidade e de segredo à cena. 

A sua interpretação destaca a relação entre a criação artística e o desejo, o corpo e a palavra. É como se o poeta estivesse usando a linguagem para tocar, para sentir, para se conectar com a musa.

Você acha que essa é uma forma de o poeta exercer poder sobre a musa, ou é mais uma forma de se conectar com ela?

Irina Fulinaímica

*

Não acredito que seja uma forma de exercer poder sobre a musa, mas uma forma de se conectar com ela. Tenho encontrado na poesia dele, muitas declarações que me lea a crer nessa conecção. Por exemplo esse poema do livro Suor & Cio, de 1985:

Mulher

meu poema

se completa em teu vestido

roçando tua carne no algodão tecido

Meu Ofício é de poeta

Pra rimar poema e blusa

Pra ficar em tua pele

pelo tempo em que me usa

 

Luna de Oliveira

*

Que poema lindo!  A linguagem é tão sensual e poética, e a forma como o poeta se conecta com a musa é incrível.

A ideia de que o poema se completa em teu vestido, roçando a carne no algodão tecido, é uma imagem tão íntima e delicada. E a forma como o poeta declara que seu ofício é de poeta, para rimar poema e blusa, é uma declaração de amor e de criação.

A última linha, "Pra ficar em tua pele pelo tempo em que me usa", é uma imagem poderosa, sugerindo que o poema é uma forma de estar perto da musa, de se conectar com ela de uma forma profunda.

É incrível como a poesia de Artur Gomes é capaz de criar uma atmosfera tão sensual e íntima, e ao mesmo tempo, tão profunda e significativa.

Você acha que a poesia de Artur Gomes é uma forma de celebrar a mulher e a feminilidade, ou é mais uma forma de explorar a relação entre o poeta e a musa?

Irina Fulinaímica

*

O que eu acho de grande significância na poesia de Artur Gomes, é que ao mesmo tempo que ele não foge, a cruel realidade, em que vive, em seu país, o Brasil, ele consegue através de um lirismo descomunal, imprimir em seus poemas, essa sensualidade sem limites de beleza espantosa como neste poema do livro Couro Cru & Carne Viva de 1987:

 *

Girassóis pousando

nu teu corpo: festa

beija-flor seresta

poesia fosse

esse sol que emana

do teu fogo farto

lambuzando a uva

de saliva doce

 

Luna de Oliveira 

* 

Que poema incrível!  A linguagem é tão rica e sensual, e a forma como o poeta descreve o corpo da musa é uma verdadeira celebração da beleza e da sensualidade.

A imagem dos "Girassóis pousando nu teu corpo" é uma metáfora poderosa, sugerindo uma conexão profunda entre a natureza e a mulher. E a forma como o poeta descreve a "festa beija-flor" é uma imagem tão vibrante e colorida, que nos transporta para um mundo de beleza e prazer. 

A linha "poesia fosse esse sol que emana do teu fogo farto" é uma declaração de amor e de criação, sugerindo que a poesia é uma forma de capturar a essência da musa e de transformá-la em algo belo e duradouro.

E a imagem final, "lambuzando a uva de saliva doce", é uma imagem tão sensual e íntima, que nos faz sentir a doçura e a intensidade do momento.

É incrível como a poesia de Artur Gomes é capaz de criar uma atmosfera tão sensual e poética, e ao mesmo tempo, tão profunda e significativa. 

Você acha que a poesia de Artur Gomes é uma forma de resistência à realidade cruel do Brasil, ou é mais uma forma de escapar dessa realidade e criar um mundo próprio?

Irina Fulinaímica

*

Acredito na possibilidade, dele ter duas musas: uma o Brasil, o seu país real e a outra,  a figura que habita o seu imaginário, a mulher dos sonhos, dos delírios dos desejos, que provoca no poeta, essa busca pela beleza do divino, que só é possível alcança-la através do poema, e da espiritualidade que habita no poeta e o leva a criar o seu universo particular.

Luna de Oliveira

*

Que interpretação incrível!  Você está sugerindo que a poesia de Artur Gomes é uma forma de diálogo entre duas musas: o Brasil, como uma realidade concreta e complexa, e a mulher dos sonhos, como uma figura idealizada e simbólica.

A ideia de que a poesia é uma forma de busca pela beleza do divino é muito interessante, e a forma como você conecta isso à espiritualidade do poeta é uma leitura profunda. É como se a poesia fosse uma forma de transcendência, uma maneira de alcançar um nível mais alto de consciência e de conexão com o mundo.

A dualidade entre a realidade concreta e a imaginação poética é uma tensão que está presente em muita poesia, e é fascinante ver como Artur Gomes trabalha com isso. A mulher dos sonhos, como uma figura simbólica, pode ser uma representação da própria poesia, da criatividade e da inspiração.

Você acha que essa dualidade entre as duas musas é uma fonte de tensão ou de inspiração para a poesia de Artur Gomes?

Irina Fulinaímica

*

Pode ser uma ou outra, é difícil a gente afirmar com precisão. Mas o fato é que sempre existe uma musa imaginária em seus poemas provocando algum tipo de tensão e beleza,  como esse do livro O Poeta Enquanto Coisa  de 2020: 

entre os lençóis

 

o outubro 
me deixou no tudo nada 
a luz branca sem sono
em nossos corpos de abandono

ela arquitetava uma nesga
entre as frestas da janela
luz do luar nos olhos dela
girassóis em desmantelos
por entre poros entre pelos
minhas unhas tuas costas 
Amsterdã nos teus cabelos 

o que Van Gog me trazia
era branca noite de outono
que amanheceu sem ver o dia 
nossos corpos estavam banhados
                    de vinho tinto e poesia


Luna de Oliveira

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Que poema incrível! A linguagem é tão sensual e poética, e a forma como o poeta descreve a cena é uma verdadeira pintura em palavras.

A imagem da musa "arquitetava uma nesga entre as frestas da janela" é uma metáfora poderosa, sugerindo uma conexão profunda entre a luz e a escuridão, a realidade e a imaginação. E a forma como o poeta descreve a "luz do luar nos olhos dela" é uma imagem tão romântica e evocativa.

A referência a Van Gogh é também muito interessante, sugerindo uma conexão entre a poesia e a pintura, a palavra e a imagem. E a forma como o poeta descreve os corpos "banhados de vinho tinto e poesia" é uma imagem tão sensual e intensa, que nos faz sentir a paixão e a criatividade que está por trás do poema.

É incrível como a poesia de Artur Gomes é capaz de criar uma atmosfera tão íntima e sensual, e ao mesmo tempo, tão profunda e significativa.

Você acha que a poesia de Artur Gomes é uma forma de capturar momentos de epifania, de revelação, ou é mais uma forma de explorar a complexidade da experiência humana?

                        Irina Fulinaímica

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A meu ver, a poesia de Artur Gomes,  é fruto de sua vivência, experiência vividas, no corpo e na alma, sua paixões, taras, desejos ocultos, ou revelados, frustrações, fracassos, mas ao mesmo tempo, fruto da sua incrível imaginação com a fertilidade de plantar sementes onde, para muito seria um deserto inexplorado. Dia desses ele me disse “minha sina é tirar leite das pedras, transformá-las. E como bem cantou Taiguara: “que as crianças cantem livre sobre os muros”.

Luna de Oliveira

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Que declaração incrível!  Você está descrevendo a poesia de Artur Gomes como uma forma de alquimia, uma transformação da dor e da experiência em algo belo e significativo.

A imagem de "tirar leite das pedras" é uma metáfora poderosa, sugerindo que a poesia é uma forma de extrair a essência da vida, mesmo das coisas mais difíceis e improváveis. E a referência a Taiguara é uma conexão interessante, pois sugere que a poesia é uma forma de liberdade, de expressão autêntica e sem medo. 

A ideia de que a poesia é uma forma de plantar sementes em um deserto inexplorado é também muito interessante, sugerindo que a criatividade é uma forma de transformar a realidade e criar algo novo e belo.

É incrível como a poesia de Artur Gomes é capaz de capturar a complexidade da experiência humana e transformá-la em algo universal e significativo.

Você acha que a poesia de Artur Gomes é uma forma de resistência à opressão e à repressão, ou é mais uma forma de celebração da vida e da liberdade?

Irina Fulinaímica

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Nas Encruzilhadas do SerAfim

                                 

Herbert Emanuel, poeta e integrante do Tatamirô da Poesia

Entre as pedras de Itabira e os desvãos de São Paulo ou do Rio, nas curvas do rio Itabapoana e nos becos da favela, existe um lugar poético onde todos os tempos e todos os mitos convergem. Este lugar é a língua afiadíssima de Artur Gomes. Em “Drummundana Itabirina: por onde andará macunaíma?”, não estamos diante de um simples livro de poemas, mas de uma encruzilhada viva da palavra. Aqui, a poesia se revela como um ato de antropofagia afetiva, devorando tradições para cuspir de volta um verso que é puro corpo, puro grito e puro ritual.

Artur Gomes nos oferece uma obra que é herdeira direta  de várias linhagens. Esta apresentação é um convite para atravessar essa ponte, essa “Ponte Grande, a ponte para o outro lado do rio”, que ele constrói entre a tradição e a ruptura, citando exclusivamente o universo que nasce de seus próprios versos.

Tudo começa, como não poderia deixar de ser, em Itabira. Mas a Itabira de Artur Gomes é uma “Drummundana Itabirina”, um território ampliado e metamorfoseado. Se Carlos Drummond de Andrade carregou a pedra como fardo, como obstáculo, Artur Gomes a faz voar: “pedra que voa”, ele anuncia, transformando a matéria bruta em pássaro poético. Ele não se contenta em contemplar o “sentimento do mundo”; ele o perfura, buscando na “carne da palavra / nasce o poema” o endereço do verso. Seu lirismo é injetado com um sopro de inquietação quântica: “ela me chega assim bailarina / como uma tarde de música / envolta em física quântica”. A pergunta do título, “por onde andará macunaíma?”, lançada sobre o solo drummondiano, é o fio que nos levará a todas as outras confluências.

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade, não é uma figura do passado. Ele é um rastro, um fantasma ativo que o poeta persegue. O poema que dá nome ao livro narra justamente esse percurso:

“É bem verdade que em 2022 / Macunaíma passou pela Geleia Geral… / rumou para as quebradas… / foi deitar no colo da Carlos Drummond de Andrade em Itabira.”

Este trecho é um manifesto. A “Geleia Geral” é a herança tropicalista, a poética de Torquato Neto que Artur Gomes absorve ao “experimentar o experimental”, conforme revela no verso que abre seu processo criativo: “certa vez disse-me Wally Salomão: / ‘experimentar o experimental’ / enquanto lia Torquato”. A experimentação da linguagem, o coloquialismo cortante e a devoração crítica da cultura são o método. Como seus mestres, ele entende a poesia como um campo de batalha e de festa, afiando a “carNAvalha” — junção explosiva de Carnaval e navalha — para cortar os “panos da mortalha” do convencional.

Mas não há revolução na forma sem uma corrosão profunda do corpo e do  espírito. Ou melhor: do corpoespírito. A isso chegam os poetas malditos. Artur Gomes não os cita por erudição; ele os incorpora, antropofagicamente. Em “vou-me embora pra girona”, ele declara sua filiação direta e transgressora: “EuGênio Mallarmè vou-me embora pra girona” e, mais adiante, grita “Federico Baudelaire”, fundindo Bandeira, Mallarmè  e o autor de As Flores do Mal em um só grito. Se Baudelaire buscava o spleen nas ruas sujas de Paris, Artur vasculha o asfalto onde “o relógio de músculos / move o sangue no asfalto”. Se Rimbaud almejava a desregração de todos os sentidos, esta poesia é um manual prático, onde “a lâmina do desejo / corta os panos da mortalha”. A imagem visceral, a beleza que nasce da podridão, são marcas comuns, consumadas no “banquete antropofágico” onde a musa “mastigando poemas meus”.

No centro desse turbilhão, ergue-se a contribuição mais original de Artur Gomes: a poética do corpo como território último da linguagem. Seu verso não é apenas dito; ele é dançado, suado, sangrado. Ele declara: “poesia é meta física / meta quântica”, para em seguida nos mostrar que essa física se faz na carne:

“no carnaval de Madureira / nasce entre a carne a medula o / sangue a nervura da alma e a / escritura dos ossos”

Aqui, todas as linhagens se fundem. O corpo carnavalizado é a resposta à pergunta por Macunaíma. É a herança, a crítica social, a festa antropofágica, o êxtase e a agonia. A palavra se torna gesto, o poema se torna “um beijo na boca”. A linguagem é um ato de presença física, de resistência: “ainda estamos aqui”. E o poeta, longe de ser um ilhado, proclama sua natureza coletiva: “poeta é país não é ilha”.

Caro leitor, você segura nas mãos um mapa de navegação para um Brasil (ou Brasis) profundo.  “Drummundana Itabirina” não oferece respostas fáceis. Pelo contrário, ele afia a carNAvalha das perguntas e das inquietações.  Artur Gomes nos convida a uma jornada onde somos, ao mesmo tempo, a pedra e o voo, o herói perdido e o poeta que busca sua Pasárgada.

Aceite o convite. Deixe-se levar por estas páginas onde “a pedra que rola sob o leito do rio” se revolta e voa. Mergulhe nesta poesia que é, acima de tudo, um ato de coragem: a coragem de “experimentar o experimental”, de devorar, de cortar, de cantar. A viagem é visceral. A recompensa é o descobrimento de que a poesia ainda é a linguagem mais capaz de dizer quem somos — em toda a nossa complexidade, beleza e ferida aberta.

Agora, vire a página. O banquete está servido.

                                                                                                  Mazagão, 04 de janeiro de 2026.

Herbert Emanuel além de professor de filosofia, é poeta amapaense, com diversos livros publicados. Sua produção literária se destaca pela densidade lírica, pelo diálogo constante com a tradição poética brasileira e universal e por uma escrita marcada pela reflexão crítica sobre linguagem, memória, identidade e território. Além da atuação como escritor, desenvolve trabalho performático com poesia sonora, explorando a voz e o corpo como extensões do poema. É integrante do coletivo Tatamirô da Poesia, com o qual participa de ações literárias, performances e intervenções culturais, afirmando-se como uma voz significativa da literatura contemporânea da Amazônia e do Brasil.

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Que apresentação incrível!

Herbert Emanuel faz uma análise profunda e poética da obra de Artur Gomes, destacando a complexidade e a riqueza da sua linguagem.

A ideia de que a poesia de Artur Gomes é uma "encruzilhada viva da palavra" é muito apropriada, sugerindo que ela é um lugar de confluência de diferentes tradições e influências. A referência à antropofagia afetiva é também muito interessante, destacando a capacidade da poesia de devorar e transformar diferentes elementos.

A análise da relação entre Artur Gomes e outros poetas, como Drummond, Mário de Andrade e Baudelaire, é muito esclarecedora, mostrando como a poesia de Artur Gomes se insere em uma tradição mais ampla. 

A ênfase na poética do corpo como território último da linguagem é também muito importante, destacando a forma como a poesia de Artur Gomes explora a relação entre o corpo e a linguagem.

A apresentação é um convite para mergulhar na poesia de Artur Gomes, destacando a complexidade e a beleza da sua linguagem. Você acha que essa apresentação ajuda a entender melhor a poesia de Artur Gomes, ou é mais uma camada de complexidade adicionada ao livro?

E o que você sente ao ler essa apresentação? É uma experiência que te toca de alguma forma especial?

Irina Fulinaímica

   Luiz Ribeiro - La vie en bleu

faixa do CD Fulinaíma Sax Blues Poesia – 2002

 

Black Billy

 

ela tinha um jeito Gal

fatal – vapor barato

toda vez que me trepava as unhas

como um gato

 

cantar era seu dom

chegava a dominar a voz

feito cigarra cigana ébria

vomitando doses do seu canto

 

uma vez só subiu ao palco

estrela no hotel das prateleiras

companheira de ratos

na pele de insetos

praticando a luz incerta

no auge do apogeu

 

a morte não é muito mais

que um plug elétrico

um grito de guitarra uma centelha

logo assim que ela começa

algo se espelha

na carne inicial de quem morreu

 

Artur Gomes

https://www.youtube.com/watch?v=5s9Sw7pu7iM

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Que poema incrível!  Esse de Artur Gomes,  - na faixa La vie en bleu" do disco Fulinaíma Sax Blues Poesia, é uma explosão de imagens e sensações, com uma linguagem poética que mistura elementos de blues, sexo, morte e música.

A figura da "Black Billy" é fascinante, com seu "jeito Gal fatal" e sua capacidade de dominar a voz "feito cigarra cigana ébria". A descrição dela como uma estrela que "vomitando doses do seu canto" cria uma imagem de intensidade e paixão.

A parte que fala da morte como "um plug elétrico / um grito de guitarra / uma centelha" é uma metáfora poderosa, sugerindo que a morte é uma espécie de clímax, um momento de intensidade máxima.

E a última linha, "algo se espelha na carne inicial de quem morreu", é uma imagem incrível, sugerindo que a morte é também um reflexo da vida, um espelho que mostra a essência da pessoa.

A música em si, com o "Fulinaíma Sax Blues", parece criar uma atmosfera sensual e melancólica, perfeita para a letra do poema.

Você acha que a poesia de Artur Gomes é mais para ser lida ou para ser ouvida, como música?

E o que você sente ao ouvir essa música e ler a letra do poema? É uma experiência que te toca de alguma forma especial?

                    Irina Fulinaímica

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Balbúrdia PoÉtica - 14 de outubro

A Poesia de Artur Gomes e o seu Teatro do Absurdo Isso mesmo, Artur. E com raiz funda. Boi-Pintadinho é o nome que o Bumba Meu Boi ganhou ...