quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Abaporu - e os símbolos da antropofagia

 


Abaporu é uma clássica pintura do modernismo brasileiro, da artista Tarsila do Amaral. Considerada uma obra-prima da autora, a tela foi pintada a óleo em 1928 para ser oferecida ao seu então marido, o escritor Oswald de Andrade.

No quadro vemos a valorização do trabalho braçal (observe o pé e a mão enormes) e a desvalorização do trabalho mental (repare na cabeça minúscula).

O nome da obra é de origem tupi-guarani e significa "homem que come gente" (canibal ou antropófago). O título da tela é resultado de uma junção dos termos aba (homem), pora (gente) e ú (comer).

A tela foi pintada por Tarsila em janeiro de 1928 e oferecida ao seu marido, o escritor Oswald de Andrade, como um presente de aniversário.

Quando Oswald recebeu a tela ficou imediatamente encantado e disse que aquele era o melhor quadro que Tarsila já havia pintado. Os elementos que constam na tela, especialmente a inusitada figura ao centro, despertaram em Oswald a ideia da criação do Movimento Antropofágico.

O Movimento consistia na deglutição da cultura estrangeira, incorporando-a na realidade brasileira para dar origem a uma nova cultura transformada, moderna e representativa da nossa cultura.

Conheça um pouco mais da vida e obra de Tarsila do Amaral.

Análise da Obra Abaporu

Esta obra marca a fase antropofágica da pintora Tarsila de Amaral que ocorreu entre 1928 e 1930. É possível identificar traços característicos da artistas como a escolha de cores fortes, a inclusão de temas imaginários e a alteração da realidade.

Na pintura vemos um homem com grandes pés e mãos, e ainda o sol e um cacto. Estes elementos podem representar o trabalho físico que era o ofício da maior parte da população brasileira naquele período.

Por outro lado, a cabeça pequena pode significar a falta de pensamento crítico, que se limita a trabalhar com força, mas sem pensar muito, sendo então uma possível crítica à sociedade daquela época.

O homem em Abaporu representado transmite uma certa melancolia, pois o posicionamento da cabeça e expressão denotam alguma tristeza ou depressão. Além disso, o pé grande também pode revelar uma forte conexão do ser humano com a terra.

A técnica do gigantismo já havia sido praticada antes por Tarsila na tela A negra, pintada em 1923:

Quanto às cores usadas em Abaporu, parece haver uma clara alusão à cultura brasileira pois há destaque para o verde, o amarelo e o azul, cores predominantes da bandeira do Brasil.

O cacto faz uma referência à vegetação de regiões secas, como é o caso da nordestina, e o sol simboliza a dura rotina do trabalhador rural.

Tarsila, em correspondência trocada em 1924, deixou claro a sua vontade de se tornar uma pintora da sua terra:

Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra. Como agradeço poder ter passado na fazenda minha infância toda. As reminiscências desse tempo vão se tornando preciosas para mim. Quero, na arte, ser a caipirinha [da fazenda] de São Bernardo, brincando com bonecas de mato, como no último quadro que estou pintado.

 

Quanto às cores usadas em Abaporu, parece haver uma clara alusão à cultura brasileira pois há destaque para o verde, o amarelo e o azul, cores predominantes da bandeira do Brasil.

O cacto faz uma referência à vegetação de regiões secas, como é o caso da nordestina, e o sol simboliza a dura rotina do trabalhador rural.

Tarsila, em correspondência trocada em 1924, deixou claro a sua vontade de se tornar uma pintora da sua terra:

1. Cacto

O cacto é um elemento característico da flora nordestina e, portanto, uma imagem empregada simbolicamente para retratar a brasilidade.

Como é uma planta típica de lugares áridos, o cacto é uma lembrança da seca e da resistência e estabelece um paralelo com o povo brasileiro, celebrado pela sua capacidade de resiliência.

Vale lembrar que o cacto retratado por Tarsila é, assim como o chão, verde, uma cor muito cara à identidade nacional devido à sua forte presença na bandeira.

2. Sol

Símbolo do calor e da energia que propicia a vida, o sol pintado por Tarsila também impõe condições de trabalho duras aos funcionários rurais.

Na tela é curioso que a figura do sol seja semelhante à representação de um olho, que está posicionado acima da figura e do cacto, parecendo observar a cena.

Na composição da obra, o local escolhido para o sol é de centralidade e intermédio entre o cacto e o rosto humano. Parece que a luz emana e permite a vida tanto da flora quanto da fauna.

O amarelo do sol - assim como o azul do céu - está também presente na cor da bandeira nacional imprimindo à obra mais um traço de brasilidade.

3. Cabeça pequena

A cabeça deformada é dos elementos que mais chama a atenção diante do corpo desproporcional imaginado por Tarsila. Não por acaso, a pintora nomeou o sujeito como "figura monstruosa".

Não se consegue distinguir bem as feições da criatura em questão, por isso não sabemos se se trata de um homem ou de uma mulher.

Sem boca, não é possível interpretar com segurança a expressão da personagem com cabeça de alfinete, exceto pelo fato de estar com a face apoiada no braço (seria um sinal de cansaço?).

Alheio(a) ao que se passa ao redor, o rosto também não apresenta orelhas e se encontra muito próximo do sol. Uma das teorias mais divulgadas entre os especialistas é que a cabeça pequena é um sinal da condição da desvalorização do trabalho intelectual no nosso país.

4. Pé e mão enorme

O protagonista (ou a protagonista?) escolhida por Tarsila é uma figura extremamente desproporcional, especialmente se formos comparar as dimensões da cabeça e dos membros direitos (os membros esquerdos estão omitidos).

 

Ele(a) brota da Terra, assentado(a) no chão, assim como o cacto, mostrando-se intimamente ligado(a) ao solo.

Os pés e as mãos ampliados destacam o sofrimento do trabalhador brasileiro, a demasiada importância dada à força braçal e ao trabalho físico em oposição à desvalorização do trabalho intelectual.

Outra leitura possível para o tamanho enorme do pé é o desejo da pintora sublinhar a conexão do homem com a Terra.

Contexto histórico                             

Abaporu foi pintado nos anos 1920, um período especial para o país que vivia o encerramento da República Velha.

A República Velha durou longos anos, tendo se iniciado no dia 15 de novembro de 1889 (com a proclamação da República) e se encerrado com a Revolução de 1930, que veio a depor Washington Luís, o último presidente da República Velha.

Tanto o Brasil quanto especialmente a cidade de São Paulo caminhavam a passos largos rumo ao desenvolvimento. A década de 1920 foi marcada fortemente pela industrialização.

Em termos artísticos, 1922 foi um ano chave para os intelectuais brasileiro. Em fevereiro de 1922, o o Teatro Municipal de São Paulo abrigou a Semana de Arte Moderna, um evento que reuniu pintores, escultores, compositores, músicos e escritores. O evento havia sido planejado desde o final do ano anterior - 1921 - por Di Cavalcanti e Marinette Prado (esposa de Paulo Prado).

Os artistas se reuniram com o desejo de travar o rompimento radical com a arte em vigência, que consideravam conservadora. Em comum, os intelectuais traziam uma bagagem cultural repleta de ensinamentos aprendidos na Europa. Uma boa parcela dos artistas havia passado temporadas no velho continente e, após regressarem à casa, desejavam por em prática as novidades que haviam visto.

Da Semana de Arte Moderna participaram grandes nomes do cenário cultural nacional como:

·         Mário de Andrade (literatura);

·         Oswald de Andrade (literatura)

·         Sérgio Milliet (literatura);

·         Menotti Del Picchia (literatura);

·         Ronald Carvalho (literatura);

·         Villa Lobos (música);

·         Victor Brecheret (escultura);

·         Di Cavalcanti (pintura);

·         Anita Malfatti (pintura)

·         Vicente do Rego Monteiro (pintura)

Tarsila do Amaral não participou do evento porque encontrava-se em Paris, mas, quando retornou ao Brasil, se integrou ao Grupo dos Cinco. Anita Malfatti, sua amiga das aulas de pintura, foi quem a introduziu ao grupo que também possuía como integrantes Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade.

 

Tarsila se apaixonou pelo escritor Oswald de Andrade e os dois acabaram por se casar. Em 1923, o Grupo dos Cinco se dissolveu porque tanto Anita quanto o casal Tarsila e Oswald imigraram para Paris.

Informações práticas sobre o quadro

O quadro Abaporu foi adquirido no ano de 1995 pelo colecionador argentino Eduardo Constantini através de um leilão realizado em Nova York. O valor da venda? Meros 1,5 milhões de dólares.

Atualmente a tela encontra-se exposta no MALBA (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires). Especula-se que a obra-prima de Tarsila seja a obra brasileira mais valorizada no mundo, tendo alcançado o valor mais alto de venda na história dos negócios da pintura no país.

Durante as Olimpíadas de 2016, sediada no Brasil, Abaporu participou da exposição chamada A cor do Brasil, realizada no Rio de Janeiro.

Em março de 2011, o Abaporu foi novamente emprestado ao governo brasileiro pelo MALBA. Dessa vez a tela veio integrar a exposição Mulheres, Artistas e brasileiras, idealizada pela então presidente Dilma Rousseff. A mostra foi realizada no Salão Oeste do Palácio do Planalto, em Brasília, e reuniu 80 obras do século XX pertencentes a 49 artistas mulheres do Brasil.

Em termos de dimensões, o óleo sobre tela Abaporu tem oitenta e cinco centímetros de altura e setenta e três centímetros de largura. Abaporu é considerado por muitos historiadores da arte como a pintura mais importante produzida no Brasil.


terça-feira, 25 de outubro de 2022

Retalhos Imortais do SerAfim

  


Federika Bezerra A Porta Bandeira

Que BorTou Olivácio Doido

 

Em

mil novecentos e vinte e cinco

na noite de orgias satanazes

um raio de trovão incandescente

rachou a Igreja em Goytacazes

um vulto do despacho então desceu

movido por farol de grande luz

tocou na pedra quebrou cruz

a Rainha do Fogo dessa gente

 

Federika

de ouro azul e prata

na porta da igreja foi parida

criada pelo Padre Olivácio

que logo depois lançou na vida

aos cindo de idade encantada

foi pega masturbando em sacristia

por causa de um sonho com o príncipe

DuBoi da mais sagrada putaria

 

Expulsa

da cidade foi pra longe

cresceu entre os jardins de JardiNÒpolis

mas se você pergunta Froid Explica:

- o seu palácio agora é em Petrópolis

 

Aos

dezenove plena de alegria

conheceu Gigi da Bateria

na porta do Beco de Satã

na festa federal do Bar da Lama

a Deusa dos Lençóis de toda cama

sorrindo para ver como é que fica

dá um corte na história

inverte o drama

e transforma Ouro Preto em Vila Rica

 

e assim vamos cantar em verso e prosa

a saga dessa Deusa Iansã

que em busca da mordida na maçã

sonhava encontrar Guimarães Rosa

 

Viemos

do SerTão para os seus braços

porque a Mocidade Independente

é a mais fina e pura Flor do Lácio

afilhada do secular Padre Miguel

e fiel ao seu pai Padre Olivácio

 para completar a grande roda

trazemos o cacique Pau BraZil

o centenário Oswald de Andrade

filho da pailicéia que pariu!

 

Passando pelas bandas do Catete

dançando na maior intensidade

macumba com o índio brasileiro

nossa Ex-Cola campeã da liberdade

Federika engravidou o grafiteiro

do famoso cacete Samaral

que escrevia pelos muros da cidade:

Mocidade já ganhou o CArnaval!

 

e assim vamos cantar na grande roda

tudo o que deu e o que não deu

o dia que um pastor bem collorido

pensou ser pai de santo e se fudeu!

 

Federico Baudelaire

www.arturkabrunbco.blogspot.com


Fulinaíma MultiProjetos

www.centrodeartefulinaima.blogspot.com

domingo, 16 de outubro de 2022

Geleia Geral - Revirando A Tropicália


Geleia Geral – Revirando A Tropicália

28 outubro ou nada - 2022 - 19h

Por onde andará Fulinaíma?

 

Elenco:

 

Artur Gomes + Adriano Moura + Aimèe Cisneiro + Aline Portilho + Christina Cruz + Joilson Bessa + Marcella Roza + Marcelo da Rosa + Serginho do Cavaco + Tchello d`Barros  




Mostra Visual de Poesia Brasileira

Poesia em Movimento

 

o delírio

é a lira do poeta

se o poeta não delira

sua lira não profeta

 

leia mais no blog https://fulinaimacentrodearte.blogspot.com/


 

QUE PAÍS É ESTE?

Fragmento

 

Universidade Livre de Alvito

(Afonso Romano de Sant'Anna)

 

1

Uma coisa é um país,

outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,

outra um regimento.

Uma coisa é um país,

outra o confinamento.

 

Mas já soube datas, guerras, estátuas

usei caderno “Avante”

— e desfilei de tênis para o ditador.

Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”

e éramos maiores em tudo

— discursando rios e pretensão.

 

Uma coisa é um país,

outra um fingimento.

Uma coisa é um país,

outra um monumento.

Uma coisa é um país,

outra o aviltamento.

 

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça

em busca da especiosa raiz? ou deveria

parar de ler jornais

e ler anais

como anal

animal

hiena patética

na merda nacional?

 

Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo

comendo o que as traças descomem

procurando

o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso

que nos impeliu a errar aqui?

 

Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos

nacionais, como qualquer santo barroco

a rebuscar

no mofo dos papiros, no bolor

das pias batismais, no bodum das vestes reais

a ver o que se salvou com o tempo

e ao mesmo tempo

– nos trai

 

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,

há 500 anos queimamos árvores e hereges,

há 500 anos estupramos livros e mulheres,

há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:

 

que o futuro a Deus pertence,

que Deus nasceu na Bahia,

que São Jorge é que é guerreiro,

que do amanhã ninguém sabe,

que conosco ninguém pode,

que quem não pode sacode.

 

Há 500 anos somos pretos de alma branca,

não somos nada violentos,

quem espera sempre alcança

e quem não chora não mama

ou quem tem padrinho vivo

não morre nunca pagão.

 

Há 500 anos propalamos:

este é o país do futuro,

antes tarde do que nunca,

mais vale quem Deus ajuda

e a Europa ainda se curva.

 

Há 500 anos

somos raposas verdes

colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento

com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia

com suíças militares,

vendemos siris na estrada

e papagaios em Haia,

nada nada congemina:

a senzalamos casas-grandes

e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma

joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa

e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas

e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata

num carnaval de mulatas.

 

Este é um país de síndicos em geral

este é um país de cínicos em geral

este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo

onde nada congemina

e somos índios perdidos

na eletrônica oficina

Nada nada congemina:

 

a mão leve do político

com nossa dura rotina,

o salário que nos come e

nossa sede canina,

e a esperança que emparedam

a nossa fé em ruína,

placidez desses santos

e a nossa dor peregrina,

e nesse mundo às avessas

– a cor da noite é obsclara

e a claridez, vespertina.




Fulinaíma MultiProjetos

https://centrodeartefulinaima.blogspot.com/

Ainda Estamos Aqui

poema a(r)mado   todo os dias capino a esperança escavando outras palavras no chão desse quintal   e quando escrevo com enxada              ...